sexta-feira, 10 de julho de 2015

Como tirar uma franquia da falência

Por Priscila Zuini 
Franqueados contam como conseguiram recuperar negócios do buraco

As franquias brasileiras tiveram taxa de mortalidade de 3,7% no ano passado, bem abaixo dos quase 30% para negócios independentes. Por isso, as franquias são a escolha de muitos empreendedores na hora de ter o próprio negócio. “Muita gente compra franquia e acha que os problemas estão resolvidos”, diz André Friedheim, consultor da Francap. Mesmo com baixas taxas de falência, a franquia tem riscos que podem acabar virando prejuízo para o franqueado.

Para Maurício Galhardo, da Praxis Business, dois pontos são cruciais na gestão de franquias. “Eu acho que existem duas causas principais: vender pouco ou gastar muito. O franqueado pode vender pouco por estar em uma localização equivocada, mal preparo ou estratégia de marketing mal feita, assim como pode gastar muito por uma negociação errada do imóvel, equipe inchada, pouco produtividade ou estoque muito grande de produtos”, afirma. O fato é que os problemas aparecem e o franqueado precisa agir rápido para salvar o negócio.

Para ajudar, as franqueadoras costumam ter uma equipe de “UTI”, que tem a tarefa de salvar a unidade. Muitas vezes, o salvamento depende de um novo fôlego, financeiro e de gestão. A Ortodontic Center, por exemplo, ativou a equipe de UTI para recuperar uma unidade em Santa Catarina. Os sócios deixaram o negócio nas mãos dos funcionários a ponto de um dos franqueados de mudar para o Japão. “O meu tio era um dos sócios. Ele tentava conversar por Skype, mas a coisa não andava igual. Entre 2013 e 2014, eu e meu marido viemos para cá”, afirma Kauana Diniz, nova franqueada de São José.

Com suporte da consultora de campo, a dupla viu que o maior problema era atrair clientes. “Era feita toda a compra dos materiais para fazer o trabalho, mas não tinha cliente. Vimos que o problema estava no funcionário. Eles estavam cheios de mania, não perguntavam, faziam por conta própria. Fizemos reciclagem, para dar treinamento novo e tirar quem não se enquadrava”, diz Kauana. Na época, o faturamento saltou de R$ 28 mil para R$ 55 mil. “Dobramos o número de pacientes em questão de dois meses”, diz.

A recuperação da clínica mostra que dedicação e foco ainda são imprescindíveis para fazer a empresa crescer. “Continuo achando o perfil do franqueado um fato muito importante para o sucesso. No Brasil, muitos ainda são mal selecionados e mal capacitados. Nos EUA, se gasta muito dinheiro nos processo de implantação, porque isso evita futuros problemas”, afirma.

Na rede de escolas de capacitação Cebrac, a troca de comando foi essencial para salvar a unidade de Apucarana, no interior de São Paulo. Diogo Palmieri conseguiu aumentar de 60 para 600 o número de matrículas em um ano. “O ex-proprietário me ligou e ofereceu para assumir a unidade. Ele tinha perdido o gás e nem tinha poder de investimento”, diz.

Entre os problemas, Palmieri encontrou uma estrutura física precária, com salas e equipamentos velhos. “A escola não faturava nem para pagar o aluguel. Tinham 30 lâmpadas queimadas e a gente precisou reformar, além de treinar e motivar a equipe. O faturamento de R$ 7 mil foi para R$ 70 mil. Foi surpreendente até para nós”, afirma Palmieri.

Evitar a falência é também função e interesse da franqueadora. Hoje, além das equipes de UTI, as redes usam os consultores de campo para não perder negócios. “É o monitoramento feito pelo consultor de campo que vai mostrar esses problemas. Ele não pode ser um auditor para verificar padrões. Ele tem que ir lá fazer o franqueado ganhar dinheiro, mostrar como fazer boa gestão de pessoas. É ajudar o franqueado a ser empresário e gestor”, diz Galhardo.

O franqueador também pode ajudar divulgando informações da rede e do mercado. “Ter comparações é importante. Você percebe se está é problema interno ou de mercado. O franqueador deveria divulgar rankings para que o franqueado tenha noções de como está comparado a média. E é papel do franqueado buscar informação no mercado que ele atua”, afirma Friedheim. Para Palmieri, entusiasmo também é um fator relevante. “A pessoa precisa ter dedicação e amor ao negócio. Trabalhar muito e acreditar”, diz.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

OS PRINCIPAIS ERROS DOS BRASILEIROS NO VALE DO SILÍCIO

EXPERIENTE EMPREENDEDOR NA REGIÃO, REINALDO NORMAND ESCREVEU UMA ESPÉCIE DE GUIA PARA BRASILEIROS QUE SE AVENTURAM NA TERRA DO GOOGLE E DO FACEBOOK 

Quando se mudou para San Francisco em 2006, o mineiro Reinaldo Normand já tinha um currículo recheado para um empreendedor digital brasileiro, responsável por comandar projetos na China, Japão e EUA. No coração do Vale do Silício, porém, Normand tinha em mãos um desafio mais amplo: junto à americana Qualcomm e a brasileira Tec Toy, comandaria a criação de um novo console, voltado principalmente ao mercado emergente. Quando o produto resultante do esforço, o Zeebo, chegou às prateleiras, ficou longe do impacto esperado. O console não vendeu bem e, em vez de salvar uma Tec Toy endividada, afundou-a ainda mais. Com o Zeebo enterrado, em vez de voltar ao Brasil, ficou no Vale com a sensação que “poderia aprender mais aqui”. Desde então, Normand fundou a startup Satomi, focada em design, e virou uma espécie de guia para empreendedores brasileiros que se aventuram na região onde surgiram algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo, da Atari à Tesla, da Apple ao Google, do Facebook ao AirBNB.

Desde 2011, a quantidade de contatos dos brasileiros indo ao Vale do Silício para tentar a vida aumentou muito. A migração, porém, escondia algumas armadilhas: o brasileiro ia para a região mais tecnológica do mundo com uma visão totalmente errada dela. “As pessoas não têm a menor ideia de como o Vale do Silício e a cultura de startups funciona. É um outro planeta, diferente da realidade brasileira”, afirma.  Baseado nestas interações, Normand escreveu o e-book “Vale do Silício” (gratuito, disponível em www.valedosilicio.com), que se apresenta como uma porta de entrada para quem, tal qual ele, queria desbravar a região. Nesta entrevista, Normand fala sobre os principais erros desta incursão por parte de empreendedores brasileiros, analisa a cultura de tolerância ao fracasso que permeia a região e explica por que só abrir uma filial em San Francisco não garante sucesso a ninguém.

Qual é o principal erro dos empreendedores que se mudam para o vale hoje pensando em empreender?
O erro mais comum do empreendedor iniciante é achar que, vindo para cá, sua startup irá conseguir dinheiro fácil de investidores. Não poderia estar mais enganado. O ambiente aqui
é pelo menos umas cem vezes mais competitivo que o brasileiro. É preciso assimilar a cultura local para poder ser aceito no Vale. Isso leva anos. Outro problema que vejo frequentemente é a falta de produtos ou serviços competitivos fora do Brasil. Se sua empresa não foi pensada para competir globalmente, não adianta estar no Vale do Silício.

Neste caso, o tamanho do mercado interno no Brasil funciona como uma armadilha. Quais são bons exemplos de startups brasileiras que foram para o Vale e se mostraram competitivas?
Não existem startups brasileiras que vieram para o Vale e se tornaram competitivas internacionalmente; ainda. Como eu disse acima, vir para o Vale não mudará muita coisa na startup se ela não entender como funciona este lugar e assimilar sua cultura.

Por que escrever um livro sobre sua experiência no Vale do Silício?
Pela minha história e por viver em São Francisco, sou procurado frequentemente por empreendedores, funcionários públicos e executivos que querem saber mais sobre o Vale do Silício. Afinal de contas, esta região produz as startups mais influentes e inovadoras do planeta e há um enorme interesse  em aprender sua fórmula de sucesso. Nestas conversas, e para minha surpresa, constatei que a maior parte das informações que eu compartilhava era considerada inédita e valiosa.  As pessoas não têm a menor ideia de como o Vale do Silício e a cultura de startups funciona. É um outro planeta, diferente da realidade brasileira.

O livro surgiu desta constatação. Acho que a metodologia de sucesso do Vale pode ser útil para empreendedores iniciantes, empresas e até governos. Meu objetivo é atingir o maior número de pessoas possível e compartilhar tudo o que eu aprendi. Por isso, escolhi o formato gratuito.

O brasileiro que vai para aí acha que o Vale opera de que forma? De onde o brasileiro tira esta ideia?
Para ser justo, não é só o brasileiro que não entende o Vale do Silício. Até mesmo dentro dos EUA as pessoas têm dificuldades de entender este lugar pois ele opera com regras muito diferentes das existentes no resto do mundo. É um fenômeno único.

O problema é basicamente de educação. Ainda utilizamos as teorias gerais da administração e do marketing desenvolvidas no século XX. Elas funcionaram muito bem em indústrias antigas, mas não são mais aplicáveis na nova economia digital. Na minha visão, a metodologia de funcionamento das startups vai ser aplicada em todos os setores da economia daqui a 20 anos, simplesmente porque a tecnologia vai provocar disrupturas em todas as indústrias.

Nos últimos anos, o interesse dos brasileiros cresceu pelo Vale?
Sim, desde 2011 o interesse subiu muitíssimo. Principalmente vindo de empresas que buscam encontrar a "fórmula da inovação”, uma contradição em termos.

Por que? Muita empresa acha que é só abrir uma filial em San Francisco para explodir em vendas?
Porque não existe fórmula da inovação. Isto é uma falácia. Inovação vem da cultura da companhia. Muitas empresas acham que abrir uma filial no Vale do Silício as tornará inovadoras e isso não é verdade.

Há centros de inovação no Brasil que se gabam de ser o Vale do Silício brasileiro, como Belo Horizonte, São Paulo, Recife e Campinas. Quais destes centros se aproxima mais, em infra-estrutura e cultura empreendedora, com a região americana?
Em primeiro lugar, gostaria de dizer o quanto aprecio o trabalho dos empreendedores e investidores brasileiros para transformar a cultura do Brasil em todos estes centros citados. É louvável e eu os saúdo. Entretanto, embora tenha havido um progresso considerável nos últimos 3 anos, nenhum destes centros ainda chega perto do Vale do Silício. Há uma distância de pelo menos umas duas décadas entre o que é feito no Brasil e o que acontece aqui. A razão principal é cultural; e eu tento explicar no livro como isso pode ser mudado. É um processo de longo prazo onde o foco tem que ser em educação, mudança de mentalidade e em idolatrar os “role models”.  Levará décadas.

A tolerância ao fracasso, fundamental na trajetória do empreendedor americano, já existe na cabeça dos empreendedores brasileiros?
Para ser justo, acredito que esta tolerância exista na cabeça de alguns corajosos empreendedores brasileiros. Mas o problema é que ela tem que ser estendida ao resto da sociedade incluindo empresas, investidores e imprensa. Ser julgado por erros que cometeu paralisa a inovação e destrói o ecossistema. Veja o caso do Eike Batista. As pessoas deveriam ser julgadas pelo que aprenderam com os erros. Errar todo mundo erra, é a coisa mais normal do mundo.

Mas errar do tamanho do Eike? Tratá-lo com o mínimo de desconfiança não seria natural depois que muita gente perdeu tanto dinheiro?
Claro, mas o  caso do Eike é complexo. De um lado, ele foi brilhante, teve uma visão de Brasil que talvez tenha sido inédita na nossa história. Pensou grande e fez acontecer. Do outro, ele prometeu mais do que conseguiu entregar, o que gerou todos os seus problemas. Um clássico problema de execução. Mas não é porque ele falhou que devemos crucificá-lo como um vilão, a não ser que tenha havido fraude. E isso só a justiça poderá esclarecer.

Investir no mercado de ações ou em startups é uma atividade de alto risco. Perder dinheiro como investidor ou assistir companhias quebrarem faz parte do jogo do capitalismo. No Vale do Silício, 90% das startups irão fechar as portas.

Um sujeito nasce empreendedor ou seu entorno influencia esta formação?
Na minha visão, o empreendedor já nasce com uma tolerância ao risco e uma forma de pensar diferentes da maioria da população. Entretanto, para que o empreendedor aflore, é necessário um ambiente que entenda e estimule estas diferenças. Eu vi muita gente boa por aí que nunca seguiu o caminho do empreendedorismo por ter sido ridicularizada em suas idéias ou ideais. É terrível. Só quem passou por isso sabe como é. É um bullying societal.

Esta falta de experiência impacta a qualidade do empreendedor brasileiro?
Falta de experiência se conserta com experiência. Não é este o problema do empreendedor brasileiro, que é talentoso. O problema é o ambiente, que parece ainda estar com uma mentalidade da década de 80.  É difícil tentar algo novo e inovador sem suporte dos outros entes do ecossistema. O Brasil, na minha visão, jamais aderiu à globalização. É um mercado ainda muito fechado, caipira, onde ser amigo do Rei é mais valioso do que produzir.
Enquanto não se mudar esta cultura, não progrediremos na mesma velocidade do resto do mundo. E continuaremos a exportar commodities.

Depois de criar o Zeebo, se envolveria de novo em um projeto de hardware no Brasil?
Não. Hardware não é complicado de fazer, tecnicamente falando. O problema é gerenciar  o “supply chain”, capital de giro e os canais de distribuição. Quando se faz hardware, 90% do processo está nas mãos de terceiros, que você não controla. O risco é muito mais alto.

Fonte: 
http://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2014/11/os-principais-erros-dos-brasileiros-no-vale-do-silicio.html

domingo, 5 de julho de 2015

O que é Bootstrapping?

Existem várias definições para Bootstrapping, como você pode conferir na Wikipedia, mas eu vou falar aqui somente sobre a definição relacionada à empresas. A palavra em português significa "alça de botas" e o significado veio de uma metáfora que dizia "puxar-se para cima com suas próprias alças de botas" como sendo algo impossível. A partir da novela Ulysses em 1922, o termo Bootstrapping começou a ser utilizado com outros significados e se cunhou como uma metáfora para "processos auto-sustentáveis que funcionam sem ajuda externa".
No que diz respeito à empresas e negócios, podemos dizer que:
Bootstrapping é o ato de iniciar uma empresa sem investimento externo, ou seja, usando os seus próprios recursos e preferencialmente pouco dinheiro.
Essa é a melhor definição que eu consegui chegar. Em alguns lugares, você vai ler que Bootstrapping é também o ato de iniciar uma empresa com pouco investimento externo, neste caso, trata-se de empréstimos de familiares e amigos ou até mesmo de banco, mas nunca de  investidores.
O que isso quer dizer?
Significa que o empreendedor que inicia um novo negócio realizando Bootstrapping, não busca investimento externo no momento da criação da empresa e viabiliza tudo com seus próprios recursos (tempo e dinheiro). Além disso o termo está relacionado ao fato de gastar pouco dinheiro. Um empreendedor rico que investe deliberadamente milhões de reais para iniciar o seu negócio, não está realizando Bootstrapping.
Como é possível empreender com pouco dinheiro?
Existem basicamente duas maneiras. São elas:
Jornada Dupla - Nesta modalidade o empreendedor se mantém empregado em outra empresa. Financia o seu próprio negócio com parte do seu salário e dedica às noites e os finais de semana para trabalhar no seu negócio.
Reserva Financeira - Nesta modalidade o empreendedor cria uma reserva financeira, em geral guardando dinheiro do seu salário. Quando sua reserva atinge um valor que considera seguro para iniciar seu negócio, ele pede demissão e investe todo o seu tempo e o dinheiro da reserva para iniciar sua empresa.
Por que empreendedores escolhem fazer isso?
A resposta é simples: Liberdade.
Normalmente ao aceitar capital externo, o empreendedor ganha um sócio que invariavelmente fica sob algum controle e não permite que ele empreenda da maneira que acha de que deve ser feito.
Fazendo Bootstrapping, o empreendedor tem a liberdade para desenvolver a empresa como quiser e fica livre para aplicar sua própria visão, tentar de diversas maneiras e por fim realizar o seu sonho, até que ele não seja tão rentável do ponto de vista de um investidor.
Conclusão
Não é à toa que a origem da palavra veio de um significado de algo impossível. No primeiro momento realmente parece que é muito difícil conseguir montar uma empresa de sucesso desta maneira, mas diversas empresas são criadas assim e muitos empreendedores nem sabem que estão realizando Bootstrapping.
Fonte: http://rafael.adm.br/p/o-que-e-bootstrapping/